Adilson Baptista*
A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal não foi apenas uma derrota política do presidente Lula. Foi uma derrota simbólica, institucional e histórica. Pela primeira vez em 132 anos, o Senado barrou a indicação de um presidente da República para a mais alta Corte do país. O placar de 42 votos contrários e 34 favoráveis não apenas impediu a nomeação do atual advogado-geral da União — ele expôs, em rede nacional, o desgaste político de um governo que já não consegue converter poder em autoridade.
Mais do que um revés parlamentar, o que se viu foi uma resposta política a um nome que, desde o início, carregava resistências muito além da oposição formal. Jorge Messias não chegava ao Senado apenas como jurista. Chegava como símbolo. E foi exatamente isso que pesou contra ele.
Sua rejeição não decorre apenas de currículo, tecnicalidade ou sabatina. Ela nasce daquilo que seu nome passou a representar no imaginário político nacional: a continuidade de uma lógica de poder marcada por submissão ideológica, aparelhamento institucional e excessiva proximidade entre governo e estruturas que deveriam operar com independência.
O Senado, ontem, rejeitou mais do que um indicado. Rejeitou um símbolo. Jorge Messias jamais conseguiu se desvencilhar da imagem de homem de confiança do lulismo, moldado não pela magistratura, mas pela conveniência política. Seu nome esteve ligado, desde os tempos do célebre episódio do “Bessias”, à memória de um Estado operando para proteger os seus. Ainda que juridicamente se alegue outra leitura, politicamente o dano jamais foi superado. E, em política, símbolos pesam tanto quanto fatos.
Sua passagem pela AGU tampouco ajudou. Para amplos setores da sociedade, sua atuação foi associada menos à defesa técnica da ordem jurídica e mais à blindagem institucional de interesses do governo. Não se trata apenas do que fez, mas da percepção pública consolidada sobre o papel que exerceu: o de operador jurídico de um projeto de poder.
Esse ponto é central. O Senado não barrou apenas Jorge Messias. Barrou a tentativa de transformar o STF em extensão ideológica de um governo já profundamente desgastado.
A rejeição também revela algo maior: cresce no país a exaustão diante de um Supremo percebido, por parcela expressiva da sociedade, como politicamente expansivo, por vezes militante e frequentemente inclinado a ultrapassar os limites da contenção constitucional. A indicação de Messias foi lida, por muitos, como aprofundamento desse modelo — e o Senado captou esse humor.
Ainda que a sabatina tenha sido formalmente técnica, o voto foi inevitavelmente político. E não poderia ser diferente. O Senado entendeu que aprovar Jorge Messias seria endossar não apenas um nome, mas uma visão de poder. E decidiu, pela primeira vez em mais de um século, dizer não.
O país está cansado de indicações que parecem premiar fidelidade política em vez de rigor constitucional. Está cansado da erosão da confiança institucional. Está cansado da sensação de que a Constituição vem sendo interpretada conforme conveniências de ocasião, e não como limite objetivo ao poder.
O Senado, desta vez, ouviu esse cansaço. Não se trata de celebrar humilhação pessoal. Jorge Messias continuará sua trajetória pública, e sua rejeição não apaga sua biografia. Mas a política, sobretudo em cargos de Estado, exige mais do que currículo e lealdade. Exige independência. Exige temperança. Exige credibilidade institucional.
E foi justamente isso que faltou. Ao barrar Jorge Messias, o Senado fez mais do que impor uma derrota ao governo Lula. Impôs um freio — ainda que tardio — à percepção de que o Supremo pode continuar sendo tratado como espaço de acomodação política.
Num país exausto de partidarização institucional, a rejeição de ontem teve o peso de um recado simples, direto e raro em Brasília: Basta!
*Jornalista - Editor do Jornal de Bonfim (Mtb 47773)
Para onde vamos? O preço da liberdade: o que a história do comunismo nos ensina sobre o futuro do Brasil
Eleições O debate que não aconteceu
Dia D A que ponto chegamos
A fome do Estado O peso do Estado e o custo do progresso: quem paga a conta?
Poder O alicerce do poder
Copa? O pão está caro e o circo sem graça
Mín. 20° Máx. 28°
Mín. 20° Máx. 31°
Chuvas esparsasMín. 20° Máx. 33°
Chuvas esparsas
Opinião O preço da liberdade: o que a história do comunismo nos ensina sobre o futuro do Brasil
Colégio Cervantes Colégio Cervantes promove reflexão sobre os sete hábitos e a importância da constância
Pense bem Mandato de 12 anos para ministros do STF
Cura e Consciência Quando a comida tenta preencher o que a alma não consegue dizer